As mulheres da província de Cabo Delgado afirmam viver num ambiente de permanente insegurança devido à violência armada que afecta a região há cerca de oito anos. No âmbito do encontro promovido pela Comissão Técnica para o Diálogo Nacional Inclusivo (COTE), exigiram o direito de viver em paz, segurança e dignidade.
O encontro, que decorreu sob o lema “As Caras e Vozes das Mulheres Contam”, serviu de espaço para denúncias e reivindicações relacionadas com os abusos sofridos por mulheres, crianças e raparigas no contexto do terrorismo. Mirna Chitsungo, jornalista e defensora dos direitos humanos, afirmou que a violência impede qualquer perspectiva de desenvolvimento e deixa as mulheres numa situação de extrema vulnerabilidade.
Segundo Chitsungo, as mulheres vivem com medo constante, sem saber se no dia seguinte estarão com as suas famílias ou forçadas a procurar refúgio noutras localidades. A activista questionou ainda a forma como a insurgência é tratada, defendendo maior clareza e eficácia no combate ao terrorismo.
Durante o encontro, foram também denunciados alegados casos de raptos, abusos sexuais, tráfico de raparigas e até de órgãos humanos nas zonas afectadas pelos ataques armados. Chitsungo afirmou que crianças são raptadas para integrar grupos insurgentes e que muitas raparigas acabam vítimas de violência sexual.
A insegurança, segundo Melânia Pedro, membro da sociedade civil em Cabo Delgado, agrava-se nos centros de reassentamento, onde mulheres deslocadas enfrentam exploração sexual em troca de ajuda alimentar ou bens básicos. Muitas destas mulheres são viúvas ou desconhecem o paradeiro dos seus esposos, o que aumenta a sua vulnerabilidade.
Face a este cenário, as participantes do encontro defenderam que a paz é urgente e constitui um direito fundamental. “Exigimos a devolução do direito de viver sem medo e com dignidade”, sublinhou Mirna Chitsungo.
A jovem Diozilda Júlio, natural e residente em Cabo Delgado, destacou que a insegurança é o principal obstáculo ao progresso das mulheres e apelou à COTE para priorizar a resolução do problema do terrorismo. Segundo afirmou, só com paz será possível desenvolver áreas como educação, saúde e saneamento.
Por sua vez, Odete Manjate, membro da Comissão Técnica para o Diálogo Nacional Inclusivo, referiu que, além da segurança, as mulheres da província também reivindicam maior acesso a oportunidades económicas, como forma de reconstruir as suas vidas após anos de conflito.
