O escritor moçambicano Mia Couto defendeu que as escolas não devem ser utilizadas como centros de acolhimento para vítimas de inundações e outras intempéries, alertando para os impactos negativos desta prática no funcionamento do sistema de ensino.
As declarações foram proferidas esta segunda-feira, durante a aula inaugural da Universidade Pedagógica de Maputo, onde o autor foi o orador principal perante centenas de estudantes e académicos.
Actualmente, centenas de escolas em todo o país continuam a servir de abrigo para famílias afectadas pelas cheias, muitas das quais perderam as suas habitações. A situação contribuiu para o adiamento do início do presente ano lectivo e, mesmo após a retoma das aulas, alguns estabelecimentos de ensino permanecem ocupados.
Perante este cenário, Mia Couto considerou que, embora a utilização das escolas resulte da ausência de alternativas imediatas, é fundamental investir na construção de centros de acolhimento adequados, que permitam responder de forma eficaz a situações de emergência sem comprometer o acesso à educação.
O escritor defendeu ainda que estes espaços devem ter uma utilização contínua ao longo do ano, podendo acolher actividades culturais, recreativas e comunitárias, evitando assim a sua subutilização fora dos períodos de crise.
Na sua intervenção, abordou também a dependência do país em relação à importação de bens, incluindo produtos alimentares, questionando a capacidade nacional de produção, décadas após a independência. Segundo afirmou, poderão existir interesses instalados que favorecem a importação em detrimento da produção interna.
Mia Couto criticou igualmente a ostentação de riqueza por parte de algumas elites, considerando que tal comportamento reflecte uma postura de arrogância e distanciamento social.
Dirigindo-se à comunidade académica, o escritor desafiou as universidades a assumirem um papel mais activo na sociedade, defendendo uma maior ligação ao sector produtivo e às comunidades, bem como a criação de espaços de debate que contribuam para a resolução de problemas concretos do país.
Por fim, apelou ao reforço da formação de cidadãos com pensamento crítico e capacidade de intervenção, capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável de Moçambique.
Por: Joao Mbatine
