Crescem os relatos de cidadãos africanos recrutados sob promessa de emprego na Rússia e posteriormente enviados para a linha da frente da guerra na Ucrânia, onde vários terão perdido a vida. As famílias procuram agora respostas e, em muitos casos, a possibilidade de repatriar os corpos.
Em Kampala, no Uganda, Caroline Mukiza, de 42 anos, recebeu através das redes sociais a notícia da morte do marido, Edson Kamwesigye, de 46 anos. O homem viajou para Moscovo, em Dezembro de 2025, acreditando que iria trabalhar como segurança privada, função que já desempenhara no Iraque e no Afeganistão.
Dias antes de ser destacado para combate, enviou uma mensagem à família a relatar que ele e outros homens tinham sido obrigados a assinar contratos de natureza militar. Pouco depois, seguiram para a sua “primeira missão”. Em Janeiro, começaram a circular imagens nas redes sociais que alegadamente mostravam o seu corpo sem vida.
Sem confirmação oficial e sem apoio institucional para o repatriamento, a família permanece num limbo doloroso. “Quando uma pessoa morre, sabemos que deve ser enterrada. Mas onde está ele?”, questiona a viúva.
Casos semelhantes têm sido reportados no Uganda, Quénia, Camarões, Nigéria e África do Sul. Muitos dos recrutas são aliciados através de plataformas digitais, com promessas de salários atractivos e funções de segurança.
Em Novembro, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrij Sybiha, afirmou que pelo menos 1.436 cidadãos de 36 países africanos estariam a combater ao lado das forças russas.
As autoridades ugandesas confirmam que não existem acordos bilaterais de trabalho com a Rússia nem com a Ucrânia. Segundo o Ministério do Trabalho, vários recrutamentos terão ocorrido online, sem enquadramento legal. Em Agosto passado, nove homens foram impedidos de embarcar para Moscovo e um cidadão russo ligado a uma empresa não registada foi detido.
Para além do drama humano, especialistas alertam para o impacto social e económico deste fenómeno. O aliciamento de trabalhadores com promessas enganosas expõe fragilidades nos sistemas de regulação laboral e pode comprometer a confiança nos mercados internacionais de emprego.
Organizações da sociedade civil defendem maior fiscalização das plataformas digitais e campanhas de sensibilização para prevenir novos casos. A falta de mecanismos de protecção e de assistência consular eficaz agrava a vulnerabilidade das famílias afectadas.(DW)
Por: IZILDA CHILUNDO
