Após meses em silêncio, o ex-primeiro-ministro e candidato presidencial Baciro Djá pronunciou-se pela primeira vez sobre o alegado golpe de Estado de 26 de novembro do ano passado, que resultou na destituição do Presidente Umaro Sissoco Embaló.
Numa conferência de imprensa realizada no domingo, em Bissau, Djá acusou a Plataforma Republicana coligação que apoiou Embaló de não ser inocente no episódio que interrompeu o processo eleitoral no país.
Momentos após as declarações, Baciro Djá foi detido por elementos da Polícia da Ordem Pública (POP) e conduzido para a segunda esquadra de Bissau, onde permaneceu durante algumas horas antes de ser libertado.
Durante a intervenção, Djá afirmou que existem múltiplas narrativas sobre os acontecimentos de 26 de novembro. “Ouvimos várias narrativas. Algumas dizem que é uma intentona de golpe de Estado e outras dizem que é um golpe de Estado. Não participámos em nenhum deles, mas a Plataforma não está distante de quem o deu, pois alguns dos seus membros estão hoje no comando militar e no Governo”, declarou.
Desde janeiro, o Alto Comando Militar proibiu conferências de imprensa e declarações públicas não autorizadas, alegando razões de segurança e manutenção da ordem. Baciro Djá integra a plataforma política API-Cabas Garandi, mas apresentou a sua candidatura presidencial através do seu partido, a Frente Patriótica de Salvação Nacional (FREPASNA), devido à falta de consenso na coligação para escolher um candidato único.
A conferência também marcou os oito anos da criação do FREPASNA e assinalou a primeira intervenção pública de Djá desde o golpe. O ex-primeiro-ministro explicou que manteve silêncio para preservar a paz e a estabilidade no país e apelou ao diálogo como única forma de resolver a crise política. “O povo guineense merece paz, dignidade e respeito”, sublinhou.
Djá destacou ainda a importância de Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC, no atual cenário político, e defendeu que a democracia, a liberdade de expressão e a imprensa devem ser preservadas.
Para o jurista e analista político Fransual Dias, as declarações de Djá reacendem o debate sobre a legitimidade do golpe e a possível cumplicidade de actores políticos, incluindo membros da Plataforma Republicana No Kumpu Guiné. A detenção do político evidencia, segundo Dias, a sensibilidade do Alto Comando Militar em relação ao tema e reforça a necessidade de o povo guineense continuar a lutar pela liberdade de expressão e pelo afastamento da influência militar no poder.
Por: Joao Mbatine
