Merz reúne-se com Trump em Washington sob a sombra da escalada no Médio Oriente

O chanceler alemão, Friedrich Merz, encontra-se esta terça-feira com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, numa visita que, embora planeada há vários meses, ganhou peso político acrescido face à nova escalada de tensão no Médio Oriente.

Inicialmente centrada em comércio e nas tarifas aplicadas por Washington à União Europeia, a deslocação transformou-se numa missão diplomática de elevada sensibilidade. Berlim pretende clarificar junto da Casa Branca a posição alemã e europeia relativamente à ofensiva conduzida pelos EUA e por Israel, bem como à resposta do Irão.

No domingo, em Berlim, Merz reconheceu publicamente que a Alemanha enfrenta um “dilema”. O chanceler reafirmou o apoio a Washington e a Telavive e condenou os ataques iranianos, mas admitiu que os primeiros bombardeamentos levantam questões jurídicas complexas no plano internacional.

Ao mesmo tempo, sublinhou que parte da população iraniana manifesta alívio perante um eventual enfraquecimento do regime dos ayatolas. Depois de décadas de negociações infrutíferas sobre o programa nuclear e de mísseis de Teerão, o chefe do governo alemão defendeu que este não será o momento para divisões entre aliados.

A tensão diplomática intensificou-se após Alemanha, França e Reino Unido divulgarem uma declaração conjunta sinalizando disponibilidade para adotar “medidas militares defensivas”. Contudo, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, esclareceu posteriormente que a Alemanha não participará em novos ataques, limitando-se a proteger as suas forças caso sejam alvo de agressão.

Atualmente, militares alemães estão posicionados na Jordânia e no Iraque, áreas consideradas sensíveis no atual contexto regional.

Para além da crise no Médio Oriente, o encontro em Washington tem forte componente económica. Apesar de o Supremo Tribunal norte-americano ter bloqueado parte das primeiras medidas tarifárias, a administração Trump avançou com novas taxas de 10% sobre produtos europeus e mantém em aberto a possibilidade de elevar os encargos até 15%.

Berlim pretende apresentar contrapropostas e defender uma posição concertada da União Europeia. Segundo o porta-voz do governo alemão, Stefan Kornelius, o momento exige diálogo direto ao mais alto nível político.

Do ponto de vista comercial, está em causa não apenas o volume de exportações alemãs para o mercado norte-americano crucial para a indústria automóvel, química e tecnológica, mas também a previsibilidade das relações transatlânticas num período de volatilidade geopolítica.

Merz deverá ainda insistir na necessidade de recolocar a guerra na Ucrânia no centro das negociações internacionais. O objetivo alemão passa por garantir maior envolvimento europeu num eventual processo negocial entre Moscovo e Kiev.

A evolução do conflito continua a influenciar decisivamente a política europeia. O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, já admitiu a possibilidade de aceitar perdas territoriais temporárias como forma de travar os combates cenário que Moscovo rejeita.

Outro ponto que recentemente gerou tensão foi a intenção manifestada por Trump de adquirir a Gronelândia, território autónomo da Dinamarca. A Alemanha e outros parceiros da NATO manifestaram solidariedade com Copenhaga, levando Washington a suavizar, pelo menos temporariamente, a retórica sobre o tema.

A visita de Friedrich Merz a Washington ocorre num momento em que política externa e economia estão profundamente interligadas. A estabilidade no Médio Oriente influencia os mercados energéticos; as tarifas afetam cadeias de abastecimento globais; e o desfecho da guerra na Ucrânia moldará o futuro da segurança europeia.

Para Berlim, a prioridade é dupla: preservar a parceria estratégica com os Estados Unidos e, simultaneamente, afirmar a coesão europeia. Num cenário internacional cada vez mais imprevisível, a diplomacia alemã joga uma cartada decisiva tanto no plano político como no económico. (NM)

Por: IZILDA CHILUNDO

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