O académico Severino Nguenha lançou fortes críticas ao modelo de cooperação entre Moçambique e os países nórdicos, defendendo que, ao longo dos últimos 50 anos, esta relação tem gerado benefícios estruturais para os Estados mais ricos, enquanto aprofunda desigualdades sociais e dependências económicas nos países mais pobres.
A posição foi apresentada durante a Conferência Moçambique-Países Nórdicos, organizada pela Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC). Na qualidade de reitor da Universidade Técnica, Nguenha defendeu uma reflexão profunda sobre o modelo de dependência financeira do país e os seus impactos no desenvolvimento sustentável. Segundo o académico, a cooperação internacional, tal como está estruturada, tende a reproduzir assimetrias históricas, em vez de promover autonomia económica, justiça social e soberania sobre os recursos estratégicos.
A crítica foi reforçada pelo investigador João Feijó, que apontou a ausência prolongada do Estado nas zonas de exploração de recursos naturais. De acordo com o pesquisador, a presença estatal fez-se sentir apenas quando os projectos extractivos já estavam em curso, recorrendo, em vários casos, à violência e à intimidação das comunidades locais. Para Feijó, este padrão revela uma governação orientada prioritariamente para a protecção de interesses económicos, em detrimento dos direitos das populações historicamente estabelecidas nesses territórios.
Na mesma linha, o sociólogo Hélder Jauana defendeu a criação de um Fundo Nacional de Prosperidade, financiado directamente pelas receitas provenientes da exploração de recursos naturais, como mecanismo de redistribuição económica e promoção da justiça social. Na sua perspectiva, a riqueza extraída do subsolo deve beneficiar a nação no seu conjunto, e não apenas elites políticas ou interesses externos.
O debate ganhou também dimensão ética com a intervenção da activista social Graça Machel, que sublinhou que o desenvolvimento não pode ser avaliado apenas por indicadores macroeconómicos, devendo estar centrado nas pessoas, no bem-estar social, na dignidade humana e na inclusão.
No conjunto das intervenções, destacou-se um consenso crítico entre académicos e activistas: o actual modelo de cooperação internacional e de exploração de recursos em Moçambique necessita de uma revisão estrutural profunda. Mais do que ajuda externa, defendem, o país precisa de políticas soberanas, modelos económicos inclusivos e mecanismos de governação que coloquem as populações no centro do desenvolvimento, rompendo com ciclos históricos de dependência e desigualdade.
Por: Jaime Alberto
