O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, está a ser alvo de fortes críticas após ter afirmado que a Europa deve “continuar a sonhar” se acredita que pode garantir a sua segurança sem o apoio dos Estados Unidos, o principal aliado da Aliança Atlântica.
As declarações foram proferidas no Parlamento Europeu, num contexto de elevada tensão transatlântica, na sequência da tentativa do Presidente norte-americano, Donald Trump, de pressionar a Dinamarca com medidas punitivas relacionadas com a Gronelândia, um episódio sem precedentes que colocou a relação entre aliados à beira de uma crise profunda.
Embora a disputa tenha sido posteriormente atenuada por um acordo sobre a segurança do Árctico, mediado pelo próprio Rutte, as suas palavras geraram polémica ao serem interpretadas como depreciativas em relação às ambições europeias de autonomia estratégica.
“Se alguém aqui pensa que a União Europeia, ou a Europa como um todo, pode defender-se sem os Estados Unidos, continue a sonhar. Não pode. Não podemos. Precisamos uns dos outros”, afirmou Rutte perante os eurodeputados.
O secretário-geral da NATO argumentou ainda que, sem o apoio de Washington, os países europeus teriam de aumentar drasticamente os seus orçamentos de defesa, chegando a 10% do Produto Interno Bruto, muito acima da meta actual de 5%.
Segundo Rutte, a Europa teria igualmente de desenvolver a sua própria capacidade nuclear, um processo que implicaria custos de “milhares de milhões de euros” e a perda do que classificou como o “principal garante da liberdade europeia”, o guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos.
As declarações rapidamente se tornaram virais nas redes sociais, alimentando um intenso debate político e estratégico sobre o futuro da defesa europeia.
Em reacção, a Comissão Europeia procurou relativizar as palavras de Rutte. A sua porta-voz, Paula Pinho, afirmou que o objectivo da União Europeia continua a ser o reforço gradual da resiliência e da independência, incluindo nos domínios da segurança e da defesa.
“Temos uma história positiva para contar sobre a redução da dependência do gás russo. Essa lógica aplica-se também à defesa e às matérias-primas essenciais”, afirmou Pinho, sublinhando o compromisso da Comissão em reduzir vulnerabilidades estratégicas.
A porta-voz recordou ainda o recente discurso da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que defendeu uma maior independência europeia face à crescente instabilidade geopolítica, anunciando uma futura estratégia de segurança, com destaque para o Árctico.
As críticas mais duras às declarações de Rutte surgiram, entretanto, a partir de França, tradicional defensora da noção de autonomia estratégica europeia.
“Não, caro Mark Rutte. Os europeus podem e devem assumir a sua própria segurança. É esse o pilar europeu da NATO”, escreveu o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, na rede social X.
No mesmo sentido, o vice-ministro francês dos Assuntos Europeus, Benjamin Haddad, salientou que a Europa é actualmente o maior doador de apoio à Ucrânia, superando os Estados Unidos.
“Vivemos num mundo cada vez mais brutal e violento. Vemos ameaças à soberania de Estados-membros, inclusive vindas de aliados. Chegou o momento de tomarmos as rédeas da nossa segurança”, afirmou Haddad, em declarações à imprensa.
Segundo o governante francês, a Europa dispõe dos instrumentos e capacidades necessárias para reforçar a sua defesa, faltando apenas vontade política para avançar de forma decisiva.
