Moçambique acumula atrasos de 63,2 milhões de euros no serviço da dívida

Moçambique terminou 2025 com atrasos no pagamento do serviço da dívida pública interna no valor de cerca de 4.660 milhões de meticais, equivalentes a 63,2 milhões de euros, refletindo dificuldades de tesouraria num contexto económico adverso.

De acordo com um relatório do Ministério das Finanças, a acumulação destes atrasos resulta sobretudo de limitações na mobilização de receitas, num período marcado pela desaceleração da economia e por fortes pressões sobre a liquidez do Tesouro. Do montante em atraso, aproximadamente 2.515 milhões de meticais correspondem a capital, enquanto cerca de 2.145 milhões dizem respeito a juros.

O documento não esclarece se estes valores já foram regularizados posteriormente, mas indica que, só no último trimestre de 2025, o país gastou cerca de 1.673 milhões de dólares no serviço da dívida pública, evidenciando o peso crescente dos encargos financeiros nas contas do Estado.

Num esforço para aliviar a pressão de curto prazo, o Governo avançou com operações de gestão de passivos, incluindo cinco leilões de troca de Obrigações do Tesouro com maturidades mais longas. Estas operações, realizadas ao longo do ano, permitiram reduzir a pressão imediata sobre o serviço da dívida em mais de 30 mil milhões de meticais, ao mesmo tempo que alongaram os prazos de pagamento e mitigaram riscos.

Apesar dessas medidas, a trajetória da dívida pública manteve-se em crescimento moderado. O stock total passou de cerca de 16,7 mil milhões de dólares no primeiro trimestre para mais de 17,1 mil milhões no final do ano, representando um aumento de 2,16%. Esta evolução foi impulsionada principalmente pelo maior recurso ao financiamento interno, que cresceu quase 7%, enquanto a dívida externa registou uma ligeira redução.

No mercado interno, as taxas de juro das Obrigações do Tesouro oscilaram entre 13,5% e 15%, fixando-se numa média anual de 14,2%. Já os Bilhetes do Tesouro apresentaram uma tendência descendente, com uma taxa média de 12,2%, sinalizando algum alívio nas condições de financiamento de curto prazo.

Na sua avaliação mais recente, concluída em fevereiro de 2026, o Fundo Monetário Internacional voltou a alertar para a situação crítica da dívida moçambicana, classificando-a como insustentável. A instituição considera que a dívida externa apresenta elevado risco de incumprimento, enquanto a dívida global permanece sob forte pressão.

O organismo aponta ainda riscos adicionais, como a contração de novos empréstimos em condições desfavoráveis e possíveis atrasos na retoma dos grandes projetos de gás natural liquefeito, considerados fundamentais para a recuperação económica do país.

Perante este cenário, o FMI defende a adoção de uma estratégia abrangente, baseada na consolidação fiscal, no reforço das receitas e numa gestão mais eficiente da despesa pública, incluindo a contenção da massa salarial. O objetivo é restaurar a estabilidade macroeconómica, criar margem orçamental para o desenvolvimento e proteger os grupos mais vulneráveis, ao mesmo tempo que se enfrenta a pressão crescente sobre o financiamento do Estado. (NM)

Por: IZILDA CHILUNDO

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